Viagem e Cinema

Viagem e Cinema: As Cidades Invisíveis e Ítalo Calvino

Viagem e cinema são minhas duas grandes paixões.

Talvez existam também algumas paixões derivadas, como a fotografia (que está tanto presente no cinema como nas viagens) ou o roteiro (tanto para escrever um filme como para planejar uma viagem, o roteiro está lá).

Por muito tempo, encarei essas duas paixões como atividades paralelas, que não se comunicavam. Até que durante um curso de Literatura de Viagem que fiz em São Paulo, acabei encontrando uma interessante relação entre os dois.

Essa relação foi uma das inspirações para criar o Viagens Cine. Confira a seguir como rolou essa relação tão querida.

O que a viagem e o cinema têm em comum?

Para que você viaja, Marco Polo?

Na leitura de um livro de Ítalo Calvino, “As Cidades Invisíveis”, repentinamente esses dois assuntos, viagem e cinema, ganharam interdependência.

” ‘As Cidades Invisíveis’, de Italo Calvino, um dos escritores mais importantes e instigantes da segunda metade do século XX, conta a história do famoso viajante Marco Polo, que descreve para Kublai Khan as incontáveis cidades do imenso império do conquistador mongol. Neste livro, a cidade deixa de ser um conceito geográfico para se tornar o símbolo complexo e inesgotável da existência humana” (Sinopse – Livraria Cultura).

Em uma das várias conversas entre o viajante Marco Polo e o imperador Kublai Khan, Khan questiona qual o propósito de viajar.

Viagem e Cinema: As Cidades Invisíveis
O livro As Cidades Invisíveis em ilustração de karina Puente

As Cidades Invisíveis

“Marco entra numa cidade; vê alguém numa praça que vive uma vida ou um instante que poderiam ser seus; ele podia estar no lugar daquele homem se tivesse parado no tempo tanto tempo atrás, ou então se tanto tempo atrás numa encruzilhada tivesse tomado uma estrada em vez de outra e depois de uma longa viagem se encontrasse no lugar daquele homem e naquela praça.

Agora, desse passado real ou hipotético, ele está excluído; não pode parar; deve prosseguir até uma outra cidade em que outro passado aguarda por ele, ou algo que talvez fosse um um possível futuro e que agora é o presente de outra pessoa. Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos.

– Você viaja para reviver o seu passado? – era, a esta altura, a pergunta do Khan, que também podia ser formulada da seguinte maneira – Você viaja para reencontrar o seu futuro?

 

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E a resposta de Marco:

– Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá.”

Cinema e Viagem: Marco Polo e Kublai Khan
Ilustração mostra o que seria o encontro do explorador Marco Polo com o imperador Kublai Khan

Os futuros não realizados

  • Nesse diálogo, o que mais me fascinou é a ideia da viagem como forma de conhecer outros “ramos”, outras possibilidades de sua vida, os futuros não realizados.
  • É como se você pudesse visualizar outras vidas, outros lugares, outros caminhos que não o seu.
  • É praticamente o mesmo conceito do cinema. Quando estamos naquela sala escura, ou até mesmo em nossas casas, mas vendo aquele filme, aqueles personagens, aquela outra história, temos a possibilidade de viver uma vida que não é a nossa.

“Se meu livro As cidades invisíveis continua sendo para mim aquele em que penso haver dito mais coisas, será talvez porque tenha conseguido concentrar em um único símbolo todas as minhas reflexões, experiências e conjeturas”, Ítalo Calvino

A fuga e o reencontro da realidade

  • Assim como o cinema, a viagem acaba tendo esse aspecto escapista, mas que ao mesmo tempo permite o autoconhecimento.
  • A partir do que você não é, do que não tem e do que você não vive, é muito mais fácil saber quem você é.
  • E também ao conhecer os outros caminhos, também permite que você os viva, nem que seja um pouco, para depois voltar fortalecido para as suas próprias vivências, fora do mundo das viagens e do cinema, agora sim no que você pode viver e realizar de fato.
  • E se, vez por outra, gosto de fugir para os filmes ou para as viagens, voltarei delas modificado para viver minha vida novamente, sob a luz de uma vida que eu não vivi, de um futuro não realizado.

 

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Fabio Pastorello

Fabio Pastorello

Editor do Viagens Cine, fotógrafo e videomaker. Curte cinema e leva a vida e as viagens com toques de romance, drama e aventura. Formado em Letras, ex-bancário e muito mais feliz como blogueiro de viagens.

17 comentários

  1. Adorei o conteúdo!!!

    Vocês sinceramente são muito bons!

    O melhor conteúdo da internet, sempre estou acompanhando.

    Um grande abraço

  2. oi Fábio… para mim é bem assim: viagens e filmes são paixões, formas de reflexão, de fuga e reencontro. De reconstrução acima de tudo. Diante do que poderia ser, mas não sou, do que posso ser, mas não fui ou diante da impossibilidade de tudo isso, está o autoconhecimento! 🙂

    De avalizações e reavaliações. Cinema e viagem! 🙂

  3. Parabéns Fabio , conteúdo como os que você proporciona são raros hoje em dia ! Um dos motivos pelo qual decidi criar meu relatorio de viagens foi o seu site !
    Obrigado por compartilhar essa experiencias

  4. Adorei o texto, Fá. A introdução sobre Marco Polo me fez lembrar meu devaneio sobre o Pelourinho de Alcãntara, eu imaginei o que tinha sido aquele lugar num outro presente que já era bem passado para nós. Você me trouxe, de supetão, ao nosso presente, com a célebre frase: "Isso são férias, Alexandra!!!". Ficamos gargalhando gostosamente por um tempo único naquele presente que hoje é memória, das boas!

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