É Tudo Verdade, Orson Welles – Ceará

Em setembro de 1941, um grupo de quatro jangadeiros, liderado pelo jangadeiro Jacaré, resolveu fazer uma viagem, partindo do litoral cearense, e chegando no Rio de Janeiro, para reivindicar melhores condições de vida e benefícios aos pescadores.

A viagem durou 61 dias em alto mar, mas no Rio de Janeiro os jangadeiros foram recebidos pelo presidente Getúlio Vargas (já que sua trajetória ganhou grande repercussão) e as reivindicações foram atendidas.

A notícia da viagem dos jangadeiros repercutiu internacionalmente, inclusive na revista Time, e chamou a atenção do cineasta norte-americano Orson Welles, que vinha do sucesso de “Cidadão Kane” (Citizen Kane, 1941), sempre nas listas dos melhores filmes de todos os tempos.

O governo norte-americano também mantinha uma política de boa vizinhança com o Brasil e já havia designado Welles para vir ao Brasil registrar o carnaval carioca.

As várias viagens dentro de “É Tudo Verdade” de Orson Welles

Documentário de Orson Welles no Brasil procura recriar a viagem de 4 jangadeiros pelo litoral brasileiro

Orson Welles em foto da época que ele esteve no Ceará

Portanto, Welles viajou para o Brasil em fevereiro de 1942, para gravar as cenas de um documentário, “É Tudo Verdade”, em episódios. A viagem de Orson Welles para o Brasil gerou repercussão na época, pois Welles era uma figura controversa, já nos Estados Unidos enfrentava crises na carreira com o lançamento de seu filme “Soberba” (The Magnificent Ambersons, 1942). No Brasil, saía para grandes noitadas no Rio de Janeiro com Vinícius de Morais, Herivelto Martins e Grande Otelo. Segundo Otelo, foi um dos poucos cineastas estrangeiros que conseguiram retratar o Brasil como ele realmente era.

Orson Welles ficou interessado pela história dos jangadeiros cearenses e criou um segmento para a sua história no documentário “É Tudo Verdade”

Infelizmente, a realidade não era o objetivo nem do governo norte-americano nem do governo brasileiro, muito menos a trajetória “comunista” do jangadeiro Jacaré. Como já conhecia a trajetória do jangadeiro pela revista Time, Orson Welles resolveu recriar a viagem dos quatro jangadeiros, criando o segmento “Four Men on a Raft” dentro de seu documentário. Portanto, Welles recriou a viagem dos jangadeiros, nos mesmos 61 dias, para registrar através de filmagens.

Uma tragédia interrompeu o empreendimento. No litoral carioca, uma onda derrubou a jangada dos quatro heróis e justamente Jacaré, o líder do grupo, sumiu nas águas da Baía de Guanabara. Mesmo assim, Welles viajou para o litoral cearense para concluir seu segmento, com recursos próprios.

 

Jangadas no litoral cearense

“Four Men on a Raft” começa em uma aldeia de pescadores (filmado em Fortaleza, no Ceará), mostrando o cotidiano dos jangadeiros desde a construção de uma jangada até a partida para o mar. Uma história se destaca, a de um jovem casal que se conhece, se casa e fatalmente o jangadeiro morre no mar. A jovem fica viúva e desamparada. Quatro jangadeiros resolvem partir numa viagem, passando por Recife e Salvador, para desembarcar no litoral do Rio de Janeiro para lutar por benefícios sociais aos jangadeiros.

Welles filma em excepcional fotografia preto e branco, cada plano parece pensando por si só. Welles tem predileção por planos com câmera baixa, mostrando os pescadores com o céu ou coqueiros ou os telhados de palha por detrás. Dizem que durante as filmagens, Welles já estava com orçamento apertado, e filmava com os pescadores em bancos de madeira (para ficar mais altos) e o operador de câmera enterrado na areia. Se o filme não prima pela naturalidade, prima com certeza pela beleza fotográfica das imagens. Ou seja, nem tudo é verdade.

Veja esse segmento de “É Tudo Verdade” no vídeo a seguir.

Voltando aos Estados Unidos, Welles foi impedido de finalizar o filme, e os negativos se perderam, só sendo recuperados em 1993, quando o filme “É Tudo Verdade” (It’s All True, 1993) foi editado e lançado por um assistente de Welles em conjunto com dois críticos.

O interessante é que o filme decorre de diversas viagens, da viagem original dos jangadeiros, da viagem recriada por Welles para a filmagem, da viagem dos jangadeiros dentro do filme e da própria viagem de Orson Welles ao Brasil. Todas viagens que com certeza rendem inúmeras histórias e lendas a serem contadas.

Conheça também minha própria viagem pelo Ceará, que apesar de ser diferente da viagem dos jangadeiros ou da viagem de Welles, compartilha as locações em comum, ou seja, o belo litoral cearense, com seu céu incrível, coqueiros e jangadas e jangadeiros incríveis. Cenário que encontramos mais no litoral leste do Ceará (Morro Branco, Canoa Quebrada), já que no litoral oeste (Jericoacara) os jangadeiros cedem espaço para os praticantes de kitesurf. Clique aqui e veja os outros posts sobre o Ceará.

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Fontes:
Wikipedia. http://en.wikipedia.org/wiki/It’s_All_True_(film)
Lazo, Vlademir. Crítica Cineplayers: http://www.cineplayers.com/critica.php?id=1990
Labaki, Amir. “O Herói Brasileiro de Orson Welles”: http://www.itsalltrue.com.br/periodico/coluna/coluna.asp?lng=&id=179
Perdigão, João. “Orson Welles filmou um clássico no Brasil: Será Verdade?”:  http://canhotagem.blogspot.com.br/2009/12/que-verdade-e-esta.html
Barroso, Natalício. Cinema Cearense. O Estado.: http://www.oestadoce.com.br/noticia/cinema-cearense-orson-welles
Bortolotti, Plínio. “Orson Welles esteve no Ceará: é tudo verdade”. http://blog.opovo.com.br/pliniobortolotti/orson-welles-esteve-no-ceara-e-tudo-verdade/
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Fabio Pastorello

Fabio Pastorello

Editor do Viagens Cine, fotógrafo e videomaker. Curte cinema e leva a vida e as viagens com toques de romance, drama e aventura. Formado em Letras, ex-bancário e muito mais feliz como blogueiro de viagens.

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