Jalapão – O que fazer: Dunas e Pôr do Sol

Nessa série de postagens, iremos mostrar algumas das atrações do Jalapão, viagem que fiz em conjunto com os Adventure Bloggers em setembro de 2013. Além de mostrar as paisagens que vimos, também iremos comentar um pouco dos trajetos, da infraestrutura e da organização pela Korubo Safaris Ecológicos, que organizou nosso passeio. 

A primeira atração que destacamos é também sua atração mais famosa e emblemática: as dunas do Jalapão. Quem já conheceu as dunas dos Lençóis Maranhenses e de Jericoacoara sabe como é incrível curtir essa paisagem ou ver um pôr do sol de cima das dunas. Mas no Tocantins, você irá encontrar um cenário ainda mais selvagem e ao mesmo tempo cinematográfico. 

Jalapão – O que fazer: Dunas do Jalapão e Pôr do Sol

Diário de Viagem  |  Jalapão – Dia 2

por Fábio Pastorello

Tocantins
As Dunas do Jalapão, um dos cartões postais da região

Nossa visita às dunas começou em nosso segundo dia de viagem. Partimos à tarde, após o almoço e um delicioso cochilo no redário do Safari Camp da Korubo. O soninho veio logo e só acordei quando o calor começou a incomodar.

Redário do Safari Camp da Korubo, cochilo é certo.

Saímos às 15h30. Essa opção de ir à tarde permite curtir as dunas sem o calor extremo do Tocantins e ao mesmo tempo conferir o final de tarde e o pôr do sol, que é imperdível.

Mas antes de chegar, muita estrada pela frente.

As distâncias envolvidas nessa viagem são longas. Essa é uma das grandes dificuldades para quem viaja ao Jalapão, a locomoção. Vimos alguns (poucos) carros circulando pela região, um deles com sérias dificuldades na estrada de terra que vai até Mateiros. 

A estrada que liga Ponte Alta até Mateiros (TO-225) tem 152km de chão batido e serve de acesso ao Safari Camp da Korubo e às dunas do Jalapão. Por debaixo da terra vermelha, encontra-se na verdade areia, que é coberta de terra para facilitar o trânsito. Para quem pretende ir com veículo próprio, é bom que seja um carro próprio para esse tipo de terreno.

O que eu recomendo é contar com o apoio das agências especializadas por lá. Eu sempre tive várias ressalvas a passeios em grupo, mas depois da Korubo revisei esse meu preconceito. Aqui no Jalapão me pareceu essencial. 

Estrada que dá acesso às dunas, no percurso admiramos a chapada da Serra do Espírito Santo
Nesse trecho do caminho, não há mais terra, só areia mesmo

As distâncias podem não ser muito significativas em quilômetros, mas em tempo são. Em função das condições da estrada, o veículo balança muito e vai bem devagar. Na realidade, a dificuldade de acesso acaba representando uma forma de preservação do parque, mas dificulta bastante a locomoção dos habitantes da região, principalmente nos casos de doença.

Depois de 1h20 de estrada e de paisagens de aparência árida e inóspitas, chegamos em um oásis. São as veredas típicas do cerrado, marcadas pelos buritis.

O cenário é cinematográfico, mas as referências são mesmo literárias. A região das veredas no Jalapão lembra as paisagens do livro Grande Sertão Veredas, clássico da literatura brasileira de Guimarães Rosa. 

Veja um trecho do livro de Guimarães Rosa e se inspire. É possível imaginar através do texto a paisagem que Rosa concebe, mas também lembro das aves cruzando nosso caminho e das paisagens aprazíveis, com lagoas e altos buritis. Grande cerrado e suas veredas.

“Como fomos: dali do Vespê, tocamos, descendo esbarrancados e escorregador. Depois subimos. A parte de mais árvores, dos cerrados, cresce no se caminhar para as cabeceiras. Boi brabeza pode surgir do caatingal, tresfuriado com o que de gente nunca soube – vem feio pior que onça. Se viam bandos tão compridos de araras, no ar, que pareciam um pano azul ou vermelho, desenrolado, esfiapado nos lombos do vento quente. Daí, se desceu mais, e, de repente, chegamos numa baixada toda avistada, felizinha de aprazível, com uma lagoa muito correta, rodeada de buritizal dos mais altos: buriti – verde que afina e esveste, belimbeleza.” (Rosa, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Editora Nova Aguilar, 1994, p. 56). 

O caminhão da Korubo desbrava as paisagens do cerrado 

Embora os cenários do livro estejam no estado de Minas Gerais, onde até foi criado o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, a paisagem do cerrado é similar e as características lembram muito a região onde nos encontrávamos. É ainda mais incrível esse contraste de ora você estar numa região quente e cuja vegetação parece sobreviver com dificuldade à ausência de água, e de repente chegar num óasis verdejante, mesmo em época de seca.

Paisagem de veredas, no meio do cerrado e da aridez surge um oásis como esse
Todo mundo tirou fotos em cima do cupinzeiro

Depois dessa parada para fotos em cima do cupinzeiro, que era o ponto elegido pelo guia para as fotografias, fomos finalmente para o início da região das dunas. Aqui encontramos uma placa de início do Parque Estadual do Jalapão.

Na entrada para as dunas, avisos visam conscientizar os visitantes

“O Parque Estadual do Jalapão (PEJ), criado pela Lei Estadual 1.203 de 12 de janeiro de 2001, pertence à categoria de Unidades de Conservação de Proteção Integral do Estado do Tocantins. (…) O Parque Estadual do Jalapão está inserido na área nuclear da região do Jalapão, representando mais de 158.000 hectares. Mesmo com tamanha dimensão, a área total do PEJ se concentra em apenas um município tocantinense, Mateiros, sendo que seus limites atingem os marcos divisórios deste com os municípios de Ponte Alta do Tocantins, São Felix do Tocantins e Novo Acordo.” Fonte: Governo do Tocantins – Secretaria do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável.

Como bem salienta o site do Governo do Tocantins, o grande desafio com a criação do parque é conciliar a visita aos lugares com a preservação desses frágeis ambientes e ecossistemas.  

Depois de uma curta trilha, acessamos a base das dunas, mas o aviso na entrada já adverte. Não é permitido subir as dunas e sim contorná-las, orientação que visa a preservação de suas características. Na região, também margeamos o Córrego Brejão da Areia, deixando o local ainda mais diversificado.

Além das dunas, do córrego e da Lagoa Azul que ilustram a paisagem das dunas, o cenário ainda é composto pela Serra do Espírito Santo, que não somente compôs toda a paisagem de nossa viagem até ali, como também no alto das dunas é possível chegar um pouquinho mais perto dela. Ou seja, além do sol e das dunas, a diversidade da paisagem do entorno torna o lugar ainda mais especial.

Na base das dunas, o córrego Brejão de Areia
O pessoal contornando as dunas, para preservar o ambiente
Já no alto das dunas, a paisagem alterna das dunas avermelhadas para o verde dos buritis

Assim que chegamos lá em cima, foi aquele frenesi para registrar o cartão postal do Jalapão. Cada um saiu para um lado, alguns querendo as fotos das areias, outros já se preparando para registrar o pôr do sol e outros ainda utilizando a Serra do Espírito Santo como pano de fundo de seus registros. Vale tudo para registrar o momento, o difícil mesmo é ficar parado. Para cada lugar que você olha, um cenário diferente e igualmente lindo.

De um lado, os registros possivelmente brincavam com os desenhos da areia nas dunas, feitos pelo vento
Tirar uma foto com a Serra do Espírito Santo ao fundo, é o grande diferencial aqui nesse cenário

O final de tarde também foi espaço para brincadeiras, e fizemos vários pulos em conjunto. Além dos saltos, também nos arriscamos a rolar nas dunas, o que é bem divertido, apesar de no final você continuar girando mentalmente durante alguns segundos.

Salto coletivo nas dunas em dois momentos. Fotos: www.territorios.com.br 

Com isso, quando percebemos o sol já estava se despedindo, e todos partimos para registrar os últimos momentos de um dia que foi sensacional.

Pôr do sol nas dunas do Jalapão

Mas quem gosta de pôr do sol, sabe que algumas vezes os melhores momentos estão ainda depois que o sol se esconde atrás da linha do horizonte, e o céu ganhou cores e tons ainda mais incríveis nesse restinho de dia.

Ao contrário de em outros lugares (como no pôr do sol na Lagoa Bonita, em Lençóis Maranhenses, onde o guia se apressou em nos levar embora), aqui os guias da Korubo nos deixaram bem à vontade e tivemos tempo suficiente para curtir esses últimos momentos do dia. Fomos embora já quase anoitecendo. 

O sol já foi embora, mas o céu continua se tingindo de cores fantásticas
Foto linda do Maurício do Trilhas e Aventuras Foto: Trilhas e Aventuras

Apesar de não ser essencial, o uso da lanterna ajudou um pouco na trilha de volta até o caminhão, já que quando voltamos já era noite e não há iluminação artificial por ali.

Celebrando o final de um grande dia nas dunas do Jalapão. Foto: www.territorios.com.br

Ainda rolou mais 1h30 de caminho de volta até chegarmos no Safari Camp da Korubo, mas estávamos todos com a sensação de missão cumprida e de termos presenciado mais um grande espetáculo.

E fica aqui o registro de como o lugar é cinematográfico através do filme “Deus é Brasileiro”, de Cacá Diegues e com Antônio Fagundes. O filme tem cenas filmadas no estado de Tocantins, como em Palmas e principalmente no Jalapão. Aliás, um dos personagens chave da história, o Quinca das Mulas (Bruce Gomlevsky) reside no Jalapão no filme, e é para lá que partem Deus (Antônio Fagundes) e Taoca (Wagner Moura, muito engraçado). Deus quer tirar férias e pretende transformar Quinca das Mulas em santo para ocupar temporariamente seu lugar. O problema é que Quinca é ateu.

Confira aqui algumas cenas dessa e de outras produções rodadas em Tocantins.
http://g1.globo.com/to/tocantins/noticia/2013/10/em-25-anos-o-tocantins-foi-cenario-para-xingu-e-deus-e-brasileiro.html

A escolha de Tocantins para as locações de “Deus é Brasileiro” parte da ideia de buscar um destino intocado, mostrando a grandiosidade da obra divina e ainda não transformada pelo homem. Walter Salles, que já havia passado pela região do Jalapão na busca de locações para o seu filme “Abril Despedaçado” mostrou algumas fotos a Diegues e a partir daí foi definida a locação. 

Deus (Antônio Fagundes) tenta convencer Quinca das Mulas a virar santo,
enquanto percorre as dunas do Jalapão

“Eu e Renata (Almeida Magalhães, produtora do filme) pegamos o primeiro avião para Palmas e, a 450 quilômetros da capital, com a preciosa ajuda do Governo do Estado, ficamos deslumbrados com aquele riquíssimo cerrado onde o homem mal havia chegado, com farta fauna e flora excêntrica, cheio de rios e cachoeiras, além de um vasto deserto de areia calcária em seu centro, cortado pela Serra do Espírito Santo.”, declara Cacá Diegues. Fonte: http://www.webcine.com.br/notaspro/npdeusbr.htm

Apesar da premissa interessante e da fotografia de Affonso Beato (um dos melhores diretores de fotografia da atualidade e que já trabalhou com Pedro Almodóvar), o filme não é dos melhores, mas vale pela curiosidade de conferir alguns lugares lindos desse nosso Brasil, para atestar a máxima de que Deus só pode ser mesmo brasileiro.

Veja o filme completo no YouTube ou vá até 1h20m12s para ver as cenas nas dunas do Jalapão.
http://youtu.be/olV7gLcmRg4



© 2013 Fabio Pastorello. Todos os direitos reservados. A reprodução de textos e/ou imagens não é permitida sem prévia autorização do autor.

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Fabio Pastorello

Editor do Viagens Cine, fotógrafo e videomaker. Curte cinema e leva a vida e as viagens com toques de romance, drama e aventura. Formado em Letras, ex-bancário e muito mais feliz como blogueiro de viagens.

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