Estrada Real: Santuário do Caraça

Em abril, fizemos uma viagem incrível pela Estrada Real, uma rota turística do Brasil que abrange destinos de Minas Gerais e Rio de Janeiro. A rota abrange 1.600 quilômetros de extensão, portanto foi preciso um recorte. Nosso ponto de partida foi Belo Horizonte e de lá seguimos para o nosso primeiro e surpreendente destino: o Santuário do Caraça, em Catas Altas. 

O Santuário do Caraça, confesso, era um lugar que eu nunca tinha ouvido falar. E minha surpresa com minha experiência por lá foi do tamanho da minha admiração. De certo, do contraste veio boa parte da nossa passagem por lá ser tão legal. 

Isso porque em viagens, quanto mais diferentes os destinos são de nós, quanto mais divergentes são de nossa vida cotidiana, melhor é a vivência. E foi isso que aconteceu no Caraça, pelo menos para mim. 

Estrada Real: Santuário do Caraça

Paz, natureza e história: entre no clima do Caraça

de 

Santuário do Caraça, um centro de espiritualidade, cultura, conservação ambiental, lazer e turismo


Amanhece no Santuário do Caraça. Enquanto eu seguia de minha humilde acomodação no Caraça para o refeitório, onde faria o café da manhã, encontrei com Padre Lauro, que me apontou uma raridade nos jardins do Caraça. Um falcão muito raro estava se alimentando de pipocas, que o padre deixa todas as manhãs.

Eu me aproximei lentamente da ave, câmera fotográfica a postos (infelizmente o zoom da minha lente é restrito, por isso precisava me aproximar mais), para tentar registrar a cena. A ave se assustou e voou.

Padre Lauro voltou e me disse bem sério: “você assustou o falcão”. Caminhando pelos corredores do Caraça, Padre Lauro fez questão de comentar com todos que um falcão muito raro havia aparecido, mas uma pessoa tentando tirar uma foto, tinha assustado a ave. Que mancada!!!

Padre Lauro registra as belezas do Caraça há muito tempo, e na época da visita encontramos uma exposição com suas maravilhosas fotografias de um lugar não menos maravilhoso, que completa 240 anos de fundação. Meu post começa com esse caso para ilustrar como meus registros fotográficos não farão justiça às belezas do lugar. Confie então em minhas palavras. 

Em exposição no Museu do Caraça, fotografias do Padre Lauro mostram as belezas naturais da região

E sabe aqueles lugares que você não espera nada, são justamente os que mais te surpreendem. Cheguei sem saber sequer o que era o Santuário do Caraça, e saí de lá querendo voltar e compartilhar tudo o que eu vivenciei. Mesmo não sendo religioso, mesmo num lugar em que a internet não pega e mesmo num movimento tão díspar da selva de pedra em que eu moro.

Para isso, uma placa no próprio lugar já avisa: “Aos que ficam: paz, saúde e harmonia (…) Entre no clima”.

Paz, saúde e harmonia. Entre no clima do Caraça

A História do Caraça

Para quem não sabe, o Santuário do Caraça foi fundado em 1774, começando com uma Ermida construída pelo Irmão Lourenço de Nossa Senhora. Essa Ermida foi utilizada até 1876, quando foi destruída para a construção da atual capela.

A Serra do Caraça, uma das hipóteses do nome Caraça seria por causa da forma de uma de suas montanhas,
que parece uma cara grande. A outra hipótese parece mais plausível.

A explicação do nome Caraça tem 2 origens possíveis: o formato de um rosto (uma grande cara) em uma das montanhas da região (nessa tese há o problema de que o nome da região seria Serra da Caraça – já que cara é um substantivo feminino –  e não Serra do Caraça, como é conhecida até hoje) ou a existência de um desfiladeiro da região (Caraça em tupi-guarani significa desfiladeiro). O importante é que por volta de 1770 o irmão Lourenço compra a sesmaria do Caraça e resolve aqui fazer um hospício e uma capela, como sinais de devoção a Nossa Senhora Mãe dos Homens.

Antes de morrer, Irmão Lourenço doou as terras para a Coroa Portuguesa para que seu trabalho tivesse continuidade. Em 1819, dois padres são enviados por D. João VI e começaram a conduzir trabalhos de expansão para que o Caraça fosse transformado em um Colégio, que perdurou até 1968, quando ocorreu um incêndio que encerrou as atividades.

No museu, artefatos antigos mostram como era a vida no Colégio do Caraça. O que mais me chamou a atenção é
que os padres realizaram um filme para retratar a vida no colégio, chamado “A Porta do Céu”. A película encontra-se no museu.

Alguns anos depois do incêndio de 1968, o Caraça foi transformado no que é hoje, um “centro de espiritualidade e missão, de cultura e educação, de conservação ambiental, lazer e turismo” (Plano de Ação para o Caraça 2007 – 2012, p. 1). 

É interessante saber que nos quartos onde dormimos, hoje transformados em acomodações para turistas ou peregrinos, um dia já dormiram estudantes célebres (até presidentes) e seminaristas. A simplicidade das acomodações ainda permite que essa influência do passado se torne sempre presente.

 

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Quartos amplos mas acomodações sem luxos fazem o espírito da hospedagem na Pousada do Caraça

Pôr do sol no Caraça

Chegamos no Caraça bem no finalzinho da tarde. O sol estava quase se pondo e nos colocamos a registrar todas as fotos que podíamos naquele curto espaço de tempo. Do tamanho de minha admiração com o lugar, o Santuário parecia cheio de cantinhos especiais para serem fotografados. E lá fomos desbravar esses cantinhos, com o brinde de uma bela luz do entardecer.

  

Bem em frente à igreja neogótica encontra-se um belo jardim, com vista para o pôr do sol. Lugar perfeito para contemplar o final de tarde.

Igreja neogótica Nossa Senhora Mãe dos Homens, a primeira igreja neogótica do Brasil

No interior da igreja, o destaque fica para toda a concepção neogótica, que ao contrário do barroco, busca a aproximação do homem a Deus através da racionalidade, principalmente através das luzes que entram no ambiente interno através dos vitrais. Um dos destaques internos é o quadro “A Ceia”, do Mestre Ataíde (1762-1830).

  

Voltando ao jardim externo, uma das curiosidades é que os padres tem o costume de colocar alimentos para os animais da região. Como já dissemos no início do post, pipocas são colocadas para atrair os pássaros. Mas um dos principais atrativos mesmo do Caraça são as carnes e frutas colocadas no adro (área externa cercada das igrejas) para alimentar o lobo-guará.

Jardins do Santuário do Caraça

A visita do lobo-guará

Quando ficamos sabendo que o lobo-guará aparece nas noites do Caraça, todos ficamos ansiosos para vê-lo. A aparição, porém, não é garantida. Já estávamos planejando passar a noite no adro para garantir que veríamos o bicho. E não é que quando eu estava passando em direção do refeitório para jantar, às 19h, o lobo simplesmente aparece.

Assim que o lobo sobe as escadas e chega no adro, surge uma pequena tensão. O Padre Lauro nos adverte para aguardarmos um pouco que o lobo ganhe confiança, para então começar a tirar as fotos. 

Dessa vez eu me comportei, nada de assustar os animais do Caraça. Ficamos todos em silêncio absoluto, o lobo se aproxima lentamente da bandeja de comida, e afinal começa a se alimentar. Vez por outra ele olha para o exterior do Santuário, desconfiado. Curioso é que nossa presença é indiferente ao lobo, ele se alimenta tranquilamente, apenas olhando de vez em quando para fora, como se temesse a aproximação de algum concorrente.

Os flashes começam a disparar. No meu caso, ainda tentei bater fotos sem flash, mas a iluminação por ali é precária.

Um dos momentos mais aguardados de quem passa a noite no Caraça: a hora do lobo-guará

Depois de observar o lobo, ele afinal desceu as escadas e sumiu na escuridão da área externa do Caraça. Fomos jantar e como alguns dos blogueiros ainda não tinham visto o lobo, no retorno do jantar sentamos todos nos degraus da igreja e ficamos aguardando que o lobo-guará retornasse. E não é que ele apareceu novamente.

Não foi uma aparição rápida. O lobo ficou bastante tempo ali se alimentando, para o deleite de todos nós, que tiramos várias fotos. Deu até para tirar um selfie com o lobo atrás. Mas fica a dica: melhores resultados nas fotos são obtidos com flash ou com o uso de um tripé, já que a luz é bem fraca.

  

No final da noite, ainda rola um chá com pipocas, onde conversamos um pouco com o Padre Lauro sobre a história do Caraça.

Refeitório: as mesas grandes e enfileiradas proporcionam maior interação, mas também remetem aos
tempos do Colégio do Caraça

Nascer do sol no Caraça

No dia seguinte, eu, Cris (Dentro do Mochilão) e Guilherme (Viajando com Eles) resolvemos acordar cedo para ver o nascer do sol. Foi esquisito vagar pelos corredores desertos (e escuros) do Caraça às 5h da manhã. Afinal nos encontramos e começamos a caminhar pela área externa até o mesmo mirante onde, no dia anterior, tínhamos contemplado o Santuário de longe na nossa chegada.

Ao cruzar a ponte de acesso ao Caraça, o sol ainda não tinha dado as caras, e me lembrei por um momento de um dos meus filmes prediletos: Conta Comigo (Stand by Me, 1986). Nem sei porque, mas naquele simples ato de três amigos atravessando uma das saídas do Caraça em busca da emoção de ver um belo nascer do sol, me lembrou a mesma partida dos meninos do filme em busca de uma aventura.

O nascer do sol ficou abaixo de nossas expectativas. Como o sol nasce por detrás das montanhas, a luz não chega a iluminar o Caraça e fica difícil fotografar ao mesmo tempo o Santuário e a beleza do céu ao amanhecer. Mas as conversas e a companhia valeram a caminhada no frio e o acordar cedo.

  
Nascer do sol no Caraça, um belo momento entre amigos

Na volta de nossa caminhada, eu estava faminto e fui direto tomar um gostoso café da manhã. O destaque foi para deliciosos pães de queijo quentinhos, mas o café tem outras opções igualmente saborosas, entre elas o próprio hóspede pode preparar uma tapioca numa chapa quente à disposição dos visitantes.

Deliciosos pães de queijo quentinhos no café da manhã no Caraça

O Centro Histórico

O Caraça guarda muita história para contar. No período de uma noite e uma manhã que passamos por lá, ficamos muito interessados por algumas dessas histórias, como o empenho de Irmão Lourenço na construção do santuário, o incêndio de 1968 (alunos e padres arriscaram suas vidas para salvar parte do acervo da biblioteca) ou o modo como os alunos viviam no Colégio.

O centro histórico do Santuário do Caraça é composto da Igreja Nossa Senha Mãe dos Homens, do Claustro, das Catacumbas, as ruínas do antigo Colégio transformado em Museu, a Biblioteca (que guarda acervo de 30 mil obras entre elas 2.500 obras raras), o Jardim, o Calvário e uma Capelinha.

Nas fotos abaixo, vemos as ruínas do Colégio e as camas de Dom Pedro II e Dona Teresa Cristina, que estiveram hospedados no Caraça de 11 a 13 de abril de 1881. Nesse link, você encontra o diário de Dom Pedro II durante sua passagem pelo Caraça. “Só o Caraça vale toda a viagem a Minas Gerais”, essa frase atribuída a Dom Pedro II está afixada nos corredores do Caraça.

  

Isso foi só um pouco do que conhecemos por lá. O Santuário é uma reserva de patrimônio natural, com diversas trilhas de curta, média e longa duração, que podem ser feitas sem acompanhamento ou acompanhadas de guias credenciados, dependendo do grau de dificuldade das trilhas. Infelizmente não tivemos tempo de fazer nenhuma das trilhas, mas vontade não faltou.

Pousada do Caraça

O antigo Colégio foi transformado em pousada em 1970 e conta com 42 apartamentos, 8 quartos com banheiros externos e algumas casas, comportando até 190 pessoas. A diária é em regime de pensão completa e também inclui o acesso às trilhas da Reserva Natural.

As reservas devem ser feitas pelo telefone (31) 3837-1939 (de segunda a sexta, das 8h às 16h), ou pelo e-mail pousadadocaraca@gmail.com. Atenção, a Pousada adverte que a procura é grande, portanto reserve com antecedência. Para valores de diária, consulte o site da Pousada, pois há diferentes preços conforme a quantidade de pessoas em cada quarto e a ala em que se fica hospedado.

Santuário do Caraça – Como Chegar

Para chegar ao Caraça, deve-se pegar um ônibus para a cidade de Santa Bárbara (pela Viação Pássaro Verde, R$ 11,85, com alguns horários diários). A partir de Santa Bárbara, não existe transporte público até o Caraça, portanto sem carro, a melhor saída é pegar um táxi (R$ 90,00).  Leia mais detalhes no site do Santuário. http://www.santuariodocaraca.com.br/programe-o-seu-passeio/como-chegar-ao-caraca/

O interessante é que o Santuário do Caraça é um lugar totalmente diferente de mim. Eu estava num santuário religioso, sem gostar muito de religião; um blogueiro em um lugar onde a internet não funciona; um morador de uma metrópole como São Paulo num lugar isolado e cercado de natureza. Talvez pelos contrastes, a experiência no Caraça tenha me fascinado tanto. Nas viagens, quanto mais diferentes os lugares são de nós, mais temos a aprender com eles e nos modificar. “Entre no clima!”

FICHA TÉCNICA:

Título: Santuário do Caraça
Direção: Catas Altas/MG
Roteiro: Belo Horizonte, Santa Bárbara (Brumal), Santuário do Caraça
Fotografia: Fábio Pastorello
O melhor: estar num lugar cheio de história e também num espaço de muita paz e contato com a natureza foi uma experiência incrível para mim, que passei apenas uma noite, imagino para quem tem a oportunidade de ficar mais tempo
O pior: o lugar é afastado, o que garante justamente a experiência de isolamento, mas não é a melhor opção para quem busca infraestrutura e variedade de opções durante a viagem
Ano: 2014
País: Brasil
Horário: todos os dias, das 8h às 17h00 (a taxa de visitação só é recebida até às 16h)
Preço: R$ 10,00 a taxa de visitação e R$ 20,00 o preço das refeições para quem não se hospeda no Caraça. Para os hóspedes, o regime é de pensão completa (café da manhã, almoço e jantar) e não há taxas adicionais
Gênero: História, Natureza, Religião
Avaliação: ★★★★★

Fonte: Site do Santuário do Caraça http://www.santuariodocaraca.com.br/

Confiram também o vídeo de nosso primeiro dia de viagem pela Estrada Real.





© 2014 Fabio Pastorello. Todos os direitos reservados. A reprodução de textos e/ou imagens não é permitida sem prévia autorização do autor.

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A viagem Blogueiros na Estrada Real (#BlogueirosnaER) foi uma realização do Instituto Estrada Real, com os blogs Dentro de Mochilão (também responsável pela organização), Pé na EstradaSegredos de ViagemTerritóriosTrilhas e AventurasViajando com Eles e Viagens Cinematográficas. Essa viagem foi patrocinada, mas as opiniões aqui expressas são de livre expressão do autor.

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Fabio Pastorello

Fabio Pastorello

Editor do Viagens Cine, fotógrafo e videomaker. Curte cinema e leva a vida e as viagens com toques de romance, drama e aventura. Formado em Letras, ex-bancário e muito mais feliz como blogueiro de viagens.

2 comentários

  1. Fabio vc foi para Catas Altas a partir de BH? A estrada é boa? Tem trecho de terra? Vc sugere outra alternativa para chegar lá? Estou programando uma viagem para as cidades históricas e pretendo incluir o Santuário do Caraça no roteiro. abs

    1. Oi, Vasti. Tudo bem? Olha só, a estrada achei boa sim, asfaltada. Existem trechos de terra alternativos, mas é possível ir somente pela estrada asfaltada. Você vai amar o Caraça. Abraços.

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