A Glória e a Graça: Filme traz Carolina Ferraz como transexual

A Gloria e a Graça Filme Crítica Estreia no Cinema

O filme brasileiro A Glória e a Graça, que entra em cartaz no dia 30 de março nos cinemas, traz um tema cada vez mais relevante às telas. A questão da visibilidade trans.

Os transgêneros (que inclui transexuais e travestis) são o elo mais discriminado da sigla LGBT, que também inclui lésbicas, gays e bissexuais. Ainda é comum associar os transexuais à prostituição ou à marginalidade, em grande parte porque o preconceito torna difícil sua inserção na sociedade ou no mercado de trabalho.

Em 2016, a Parada LGBT trouxe as trans para o protagonismo da luta contra o preconceito com o tema “Lei de Identididade de Gênero, Já! – Todas as pessoas juntas contra a Transfobia!”.

A televisão também está comprado essa “briga” contra a discriminação, e programas de TV como o Amor e Sexo e o Fantástico têm trazido luz sobre o tema. Canais do YouTube como o Põe na Roda também estão trazendo as trans para a mídia.

Chegou a vez do cinema.

A Glória e a Graça: Filme traz Carolina Ferraz como transexual

Produção traz ainda mais visibilidade ao segmento trans, ainda um dos mais afetados pelo preconceito e violência no Brasil

A Glória e a Graça Filme Estreia no Cinema
Sandra Corveloni e Carolina Ferraz, em cena do filme A Glória e a Graça

Com estreia prevista para 30 de março, o filme “A Glória e a Graça” tem coprodução da Globo Filmes e do Canal Brasil, e distribuição da H2O Films.

Na trama Graça (Sandra Corveloni), uma massoterapeuta mãe de dois filhos, descobre que está com um aneurisma. Ela resolve retomar o contato com o irmão, com quem não falava há 15 anos. Ao reencontrá-lo, Graça descobre que Luiz Carlos agora é Glória (Carolina Ferraz), transexual e dona de um restaurante em Santa Tereza, no Rio. Com a aproximação de Graça, a vida de Glória sofre uma reviravolta. Agora existe a possibilidade de ela tomar conta dos sobrinhos na ausência de Graça.

Pela sinopse, já se nota que o filme quebra dois esteréotipos associados às transexuais. O primeiro é de que somente vivem na marginalidade. A Glória de Carolina Ferraz é bem sucedida e dona de um restaurante. O segundo é de que trans não são pessoas que possuem ou podem viver em família.

O desenrolar do filme dialoga com esse contraste. Se hoje vemos uma transexual bem sucedida, o passado revela que ela esteve envolvida com prostituição. Ignorar esse elemento seria tapar o sol com uma peneira.

E se Glória passou 15 anos distante da família, o reencontro faz com que ela retome esse relacionamento familiar. Assim como Glória se transforma e abraça mais o conceito de família, está mais do que na hora da nossa sociedade mudar sua forma de encarar as trans.

Carolina Ferraz, uma transexual de respeito

A Glória e a Graça Filme Estreia no Cinema
Carolina Ferraz, laboratório com 60 pessoas para personificar uma trans

Houve polêmica quanto à escolha de Carolina Ferraz para o papel de uma trans. Porque não escolher uma atriz transexual de fato? Para o diretor do filme, Flávio R. Tambellini, “se eu fizer um filme sobre um viciado em heroína preciso de um ator também viciado? O que interessa é a entrega, a dedicação, e, principalmente, a compreensão do personagem”.

Para que a personagem fosse bem construída, Carolina Ferraz se cercou de muita pesquisa (fez laboratório com cerca de 60 pessoas). E de algumas profissionais trans, como Carol Marra, que também faz parte do elenco e vive uma amiga de Glória. Usou prótese bucal e fez aulas para engrossar a voz.

O resultado é impressionante. Carolina está excelente no papel e traz uma incrível humanidade para a personagem, em seus dramas internos (aceitar ou não a mudança que a família vai causar em sua vida) e conflitos externos (o preconceito da sociedade e sua relação com o passado marginal).

“Foi um longo processo. Há uns nove anos atrás, colhi mais de 60 depoimentos entre Rio de Janeiro e São Paulo, foi uma fase intensa de ir a campo e conviver com essas pessoas e suas realidades. O tempo foi passando e quase desistimos do projeto, ninguém queria nos dar dinheiro. Então, finalmente, conseguimos e tocamos em frente”, conta Carolina Ferraz sobre o desenvolvimento da produção.

Tambellini e as locações no Rio de Janeiro

A Glória e a Graça Filme Estreia no Cinema
A personagem Gloria é dona de um restaurante em Santa Teresa, bairro do Rio

As fimagens aconteceram no Rio de Janeiro, ao longo de quatro semanas, entre setembro e outubro de 2015, em locações nos bairros de Santa Teresa, Centro e Laranjeiras.

Se no filme anterior do diretor Flávio Tambellini, Malu de Bicicleta, a presença de locações no Rio de Janeiro era mais luminosa e forte, aqui é mais discreta. O protagonismo está mesmo em suas personagens.

Tambellini afirma que é “admirador, nesse sentido, de Woody Allen e Truffaut. O homem é fruto do ambiente em que vive. Em A Glória e a Graça, optei por Laranjeiras, Santa Tereza e o Centro, um Rio mais arraigado e tradicional”. Ou seja, são bairros mais “família” do Rio, que celebram esse reencontro de Glória com sua irmã Graça.

Mas seja em qual bairro do Rio ou qual cidade do Brasil essa história acontecesse, ela ainda seria autêntica e necessária. É preciso mudar o modo como vemos os transgêneros.

E fica a dica, você não precisa ser trans para lutar contra a transfobia.

FICHA TÉCNICA:

Filme: A Glória e a Graça
Produtor e Diretor:
Flávio Ramos Tambellini
Produtor: Alexandre Coutinho
Produtor Executivo: Fernando Zagallo
Fotógrafo: Gustavo Hadba
Roteiro: Mikael Albuquerque e Lusa Silvestre
Elenco principal: Carolina Ferraz, Sandra Curvelloni, Carol Marra, Cesar Mello e Sofia Marques – Papoula

O melhor: A interpretação de Carolina Ferraz, além do trabalho perfeito de composição, sabe combinar com maestria momentos cômicos e dramáticos
O pior: O trabalho de Sandra Corveloni, também essencial para o filme, é competente porém nunca chega a brilhar como sua colega

País: Brasil
Ano: 2017
Avaliação: ★★★★

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Fabio Pastorello

Fabio Pastorello

Editor do Viagens Cine, fotógrafo e videomaker. Curte cinema e leva a vida e as viagens com toques de romance, drama e aventura. Formado em Letras, ex-bancário e muito mais feliz como blogueiro de viagens.

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